poesia em rede
 

 


***Poesia em Rede - Tema Livre***
Poemas Apresentados ao Quinto Prémio de Poesia em Rede - Publicação Final


(1) "O Primeiro Dia de Inverno"


"O Primeiro Dia de Inverno"

Assombrado pelas memórias

De noites e vidas já deixadas

Afogo-me nas glórias

Destas grandes fachadas...

 

Esperançoso que venha, e leve

No seu toque, tão frio e rude

Que é sempre tão breve

Que não falha, e me ilude...

 

Vem o céu, cinza e perturbado

Com desdém dos orgulhosos

Lavar as ruas do pecado

Lavar até os tortuosos?

 

E esperam que eu, deitado

Neste chão de mármore vivo

Encontre o dito ditado

Por qual ando tão obsessivo?

 

No entanto, eu floresço

Mil vezes de seguida,

Noutro corpo grotesco

Para outra vida proibida...



Leonardo Faria (pseudónimo)


(2) Sem seu sol

SEM SEU SOL - Ieda de Paula

 

Sem seu sol

Sou silêncio

Sem seu sol

Sou sombra

 

Sem seu sol

Sou saudade

Sem seu sol

Sou sem sabor

 

Sem seu sol

Sou sandice

Sem seu sol

Sou sacrifício

 

Sem seu sol

Sou sem saída

Sem seu sol

Sou sacudida

 

Sem solo

Sem saga

Só saldo

Só sina

Sou sua

Sou sã


(3) Olha dentro do teu coração

Olha dentro do teu coração

 

 

Olha nos meus olhos

e verás o que significas para mim

Procura no teu coração,

procura na tua alma

 

Não me digas

mas só tu podes dizer

não vale a pena morrer

quando se ama

não vale a pena

 

Olha dentro de seu coração

tu irás me encontrar

eu não estou escondido

eu estou aqui

para ti

so para ti

 

Não há amor, como o teu amor

E ninguem me dara mais amor que tu

em lugar nenhum,

Tu estas sempre no meu caminho

esteja onde estiver

pense no que pensar

 

Olha dentro do teu coração,amor

eu estou lá

 

CSANTOS


(4) Ignoro

Ignoro

 

Sou um ignorante.
Perfiro não saber nada a ter que esquecer.
Sou, portanto, sentimentalmente preguiçoso.
Chego ao ponto de desconhecer a verdade
E por tal, ficar orgulhoso.
Mas a vida assim me tece,
E se tem que acontecer,
Porque é que nunca mais acontece?!
Ignoro.
Porque sou um ignorante.
Ou entao, resigno-me ao que acontecer doravante.
Posso tambem pedir perdão,
Mas se eu não ofendi ninguem,
Seria suplicar em vão
Porque não acredito no pecado
E muito menos na salvação.
E a conclusão?
Cada um que tire a sua.


João Humberto


(5) Solidão

 

Solidão

 

(Elenir Duarte Dias, 06/02/2009)

Corro pela estrada
Sem direção
Me perco,
E descubro,
Estou na contramão.

Carros desviam-se de mim,
Do corpo,
Do solo.

Estou só.

Derrepente ali
Nada mais me prende.
Livre vôo,
O vôo da liberdade rumo ao infinito.


(6) O Sono de Endimião

O Sono de Endimião

 

Ele abraça o absoluto para não deixar que um rasgo de  consciência

Abra caminho para o início da decadência e que esta traga a apatia

De toda um corpo nascido para ser amado por toda a matéria

Tanto pela singelidade e ingenuidade dos que compactuam com a miséria

Que vivem sob o escudo e refúgio da infelicidade como condição

De uma vida servida sob a égide da mesurice, onde o fim representa

O inicio de um novo nada, o vácuo que eles engrandecem com a abnegação

Estando o Tártaro sempre presente para realçar tudo o que a alma apoquenta

 

Como por aqueles que abraçam a eternidade e dela baseiam a sua existência

Vivendo pela regência do extremo ao invés da tirania da abstinência

E ainda que já possuindo a eternidade como garantida, a cultivam

Para que esta assuma a sua forma, e quando disso os privam

O opróbrio justifica e a ira torna-se cúmplice para toda a impunidade

Ante sentenças e juízos que mantenham a ascese da hierarquia duradoura

E só eles podem inquisir, para os outros apenas resta a indolência da sobriedade

Não como causa mas como meio para que a sua existência seja imorredoura

 

A Lua traz sempre consigo a bênção resguardada pelo negrume da noite

E ela encontra nele um conforto para conflagrar o seu voraz apetite

E aceitar as coisas como elas são é resignar-se ao conformismo da limitação

A beleza apenas pode ser aceite nunca tomada, com o frenesim da adoração

Não há a ameaça da entrega, é tudo apenas pelo capricho, pelo prazer

É tudo uma ilusão mas ainda assim ensandecida está presente a inveja

Selene sacia os seus ímpetos apenas com o toque para o seu ego satisfazer

Os melindres da paixão fazem tudo ainda que apenas um corpo ela veja

 

 

Gustavo Ferreira


(7) Canção habanera

Canção habanera

 

 

Um hímen arremessado

para o nada

uma cratera fictícia

dissimula

há um burro no cio

ali no cerro

que mostra seus dotes

ao futuro sogro

e o sogro ri

sonha vilmente

um hímen arremessado

para o lixo

a cavalo desde uma altura

com cara mestiça

com muitas caras

quase todas com pêlos

e um sorriso vertical

tão parecido à

Revolução cubana

Que me assusta.

 

 

Marcelo Faure


(8) Sonho

Sonho

Olhei no teu olhar turvo
Morte que te aproximas distante
Segui teus passos negros e fugi na noite
Ao longe aviste o luar de mil cores pintado

Libertando o aroma do vazio
Misturando-se num negro doentio de solidão...
Lágrimas libertaram-se dos meus olhos
Num flamejar de esperança
Desfeita pela desilusão. Cantei!

Cantei e ao cantar descobri... Senti
Senti-te envolveres-me
Tocar em meu rosto, minha face apagada
Pegares-me na mão como se de porcelana se tratasse
Vi em teus olhos a certeza, vi em teus olhos a dúvida
A alegria, a tristeza, a vida, a morte, a súplica!!
Que te gritei morte que caminhas lenta
Com um corpo de rocha feito
Senti teu cheiro pestilento
Tuas mão viscosas de carne viva
Passares as mão pelo meu corpo nú
Penetrares no meu olhar
O teu olhar mortífero
Prenderes-me com correntes de fogo
Queimando-me a pele branca e leve
Querendo fazer-me

Beber do teu sangue
Veneno que queima
Corrosivo para a vida
Gritei!...
...Acordei.



Patrícia Simões


(9) "I don't know what tomorrow will bring"

"I don't know what tomorrow will bring"

Não sei o que o meu amanhã trará
Sinceramente ainda bem que não o sei
Não fico triste pela dor que virá
E assim sei que amanhã mudarei

As tristezas que a vida nos traz
Não as deveríamos conhecer
Porque assim a vida seguiria voraz
E eu não tinha tanto medo de a viver

As lágrimas que me rolam pela face
E que o meu sorriso por vezes esconde
São as marcas desta estranha fase
E dos sentimentos que em mim se perde

Às vezes o desejo de fugir é grande
Tal como a vontade de desaparecer
Mas a força que trago em mim faz-me gigante
E infelizmente não me ensina a deixar de sofrer

Vou olhar o amanhã com um sorriso
E se a lágrima vier, deixá-la-ei cair
Não farei do sofrimento um mero submisso
Nem impedir a minha face de sorrir

Não deixarei que me magoem
Vou ser ainda mais tolerante
E os que mesmo assim me atraiçoem
A minha revolta sentirão a todo o instante

Diana Hilário


(10) MÚSICA

MÚSICA


A música é a forma harmônica do som

que nos encanta para nos sensibilizar

e nos conduzir para juntos viajarmos

nas suas mensagens e nos completar.

 

Fazendo sinfonias para que fiquemos

encantados e quase que hipnotizados

com sua maneira sensível de cativar

nas cordas do violão e dos pianos.

Uma bela viagem a nos transportar.

 

Ficamos em transe com os andamentos

e seguindo cada compasso da canção,

obedecendo ao ritmo das suas notas

dos naipes orquestrais de transição.

 

Num acorde de escalas bem dispostas

ela busca tonalidades graves ou agudas

que a melodia desperta com os metais,

e nos deixa mais emotivos, inspirados

mais amorosos e muito mais musicais.

 

Autor: Jorge Barbosa

 


(11) EU/TU…TU/EU

EU/TU…TU/EU

 

É inevitável olhar para trás

E não te ver ao meu lado…

E hoje sou quem sou

Porque te conheci…

Junto percorre-mos caminhos errados

E sem dar conta encontrámos o certo.

Contigo…

Chorei e ri,

Gritei e calei,

Errei e aprendi,

Repreendi e tolerei.

Agora sem ti conheci a saudade…

Eu sou eu porque estavas presente,

Trago parte de ti em mim.

A ti Amigo a minha vida dedico,

- e em nós me orgulho -

Porque sem ti não teria sido a mesma.

 

 

L. Carreira


(12) Outro ensaio sobre a cegueira

Outro ensaio sobre a cegueira

 

Se os teus olhos não se cruzam com os meus

E não ouves o toque do coração,

Nem te queixas das razões dos fados teus

É por seres especial, e eu já não.

 

Se na estrada onde seguimos lado a lado

Me desvio e me chamas à razão,

Continuo, mas no teu ombro encostado

Só por seres  especial, e eu já não.

 

Qual de nós terá mais sorte no futuro,

Serei eu por me julgar um ser normal

Serás tu que derrubaste mais um muro

Apesar de regressares em cada vez,

Ao lugar inicial.

 

Qual de nós terá mais razões p’ra sorrir,

Serás tu porque o teu choro já secou

Serei eu pelo que ainda há-de vir

O que importa é o que a ternura fez,

Em iguais nos transformou.

 

 

Vitor Araújo


(13) Rosas

Rosas

 

As rosas que te ofereci,

Naquele dia,

No chão espalhadas, hoje como nunca, jazem.

 

De outrora, toda a beleza,

Murchou:

O efémero é feito de assim ser.

 

Importo-te, a ti, não mais

Que momento

Definido (porque o fazes) como vida, ou algo mais.

 

Ainda assim, na maior eternidade

Que o eterno,

As rosas que não se são já no chão jazem

 

E o assim ser sempre foi,

Intrinsecamente,

No, que o não era, início.

 

Assim somos nós:

Flores.

 

 

Leonardo Bonfim


(14) Pesadelo da realidade

Pesadelo da realidade

 

Nunca pensei acordar de um pesadelo,

mas ao ver a realidade preferi dormir...!

nunca pensei que com tanto alento,

tanto pranto tão enfermo...

Esperasse com calma o fim.

 

Será que com tanta calma,

tanta vontade de desistir me fizesse lutar?

Acreditar, quem sabe imaginar um novo rumo, certo ou incerto presumo!

Mas seria revoltado enfim...

 

Tenho raiva nas veias, isso é certo...

É o que me faz querer lutar.

Não percebo o que quero, nem no que quero acreditar...!

 

Na verdade, sou criança,

nada me impede de o ser...

Mereço a felicidade,

como qualquer ser humano, fragil no entanto...

 

Como alguém longe de mim.

 

 

Amante de borboletas



(15) A verdade é que estou sozinha

 

A verdade é que estou sozinha

E se sou como sou é por assim deve ser,

E quando olho para trás não me vejo a mim

Não me reconheço em mim própria,

Os meus pensamentos e aspirações

São meus, mas ao mesmo tempo não são

Todo o meu ser é outro, todas as minhas recordações

São memórias da pessoa que não sou.

 

Na verdade, não posso e não sou real

Sou uma projecção dos meus medos e das minhas vontades,

Todas as minhas acções reflectem a pessoa que não sou

Mas não serei eu aquilo em que me tornei?

Não comando a minha existência, num voto de fé no destino

Deposito todas as minhas esperanças em mim.

 

Alice Fernandes


(16) "Gente Como Eu"

"Gente Como Eu"


Gente como eu, eis o momento!
Resta cada vez menos do que fomos
E da esperança do que seremos.
Corações ao rubro, revolta em movimento,
Porque palavras - até estas - leva-as o vento.

Sejamos cura para um País doente:
De políticos corruptos, parasitas descarados
E egoístas crentes na sua esperteza saloia.
Sem olharmos a maleita de frente
Seremos uns inúteis acomodados.

Façam a vossa parte! Eu vou fazendo a minha,
Numa luta com consequências nefastas,
Cujo fardo carrego com um sorriso...
Porque sei, gente como eu, que não é sozinha
Esta dor na alma, esta sede de Paraíso.


Não chega sofrer pelo povo!
A mudança emerge do combate
Que começa a cada amanhecer.
E é apetecível, é um mundo novo
Que devemos merecer.


Portugal ainda não morreu!
Não queiramos ficar a seu lado na morte,
Ajamos antes para mantê-lo com vida.
Pois, ainda que nos abandone a sorte,
Será livre de remorsos, a gente como eu…


Ângelo P.


(17) Aniversário

Aniversário

hoje é o fim
de mais uma volta
em torno do sol
para celebrar

ontem era assim
mas não volta,
sem retorno, só
para se lembrar

 

Cássio Cundari



(18) MENTI

MENTI

 

A minha vida continua...

sorrindo para quem

com sorrisos leves se insinua

e me quer bem.

Abraçando braços que me abraçam,

beijando bocas que me beijam...

ocultando estes sentimentos que não passam,

relembrando  que te amam e desejam.

O meu coração só se encontrou no teu,

o meu amor está todo em ti.

Sei que imensas vezes te disse que morreu,

pois é amor, menti, menti!!!

 

A.Viana


(19) Mergulhas na cidade de cabeça...

Mergulhas na cidade de cabeça...

Mergulhas na cidade de cabeça

Sabes o destino mas perdeste algures a direcção, o sentido, o rumo...

Os becos desertos atraem-te, os lugares devolutos, as terras de ninguém

Espreitas por janelas abertas, fragmentos de vidas inundam-te por frinchas e grades de portões antigos

Sorris aos indigentes, bêbedos, drogados, que se juntam nas soleiras a compensar solidões

Trocas uns latidos com cães infestados de pulgas, olhar inteligente e pêlo imundo

Mergulhas na cidade de cabeça

Já não sabes o destino porque o que te prende é o caminho

A surpresa a cada esquina, o que menos se espera em cada rua

Deixaste os lugares-comuns para te embrenhares nos pormenores do olhar atento e perscrutador de quem caminha devagar pela cidade... de quem olha, vê, repara, imagina até...

De quem vive a cidade

Mergulhas na cidade de cabeça

E afogas-te nela!

r.


(20) E quando submetido a tal esforço,

E quando submetido a tal esforço,

Eis que me prende o pensar.

Sou então convertido a louco

Tudo o que sei agora é oco

E o que estava deixa de estar.

 

Então repouso.

Lembro-me do meu início e saio.

Retomo àquilo que sou e observo.

Refresco-me nesta brisa de Maio

Que abana o aconchegado verde tornado

Escuro pela noite; e dela sou servo

 

Estou de novo novo.

Já me surge o pensamento empurrado

Pelas ideias múltiplas e lineares.

Todo o eu está bem e aconchegado;

Estou feliz, Natureza, enquanto ficares…

 

 

 

João Batista


(21) Ela

Ela

 

 

Fraca de qualidade é a história

Ou ao autor lhe parece.

Pede à amada o que merece

Indiferença, desdém ou glória.

 

Autor que não é único

Mas de único ser,

Amo-te e apaixonado fico

Por comigo à noite estares a ler.

 

Dá-lhe o que é e o que tem.

Se a faz sorrir, sorri também.

Somos o casal aqui ao pé,

Feliz a torna, feliz ele é.

 

 

Pedro Fonseca


(22) O Café

O Café


Vim para o café,

E pelos vidros observo

Pessoas apressadas a pé.

Triste vida esta,

Que faz do ser humano o seu servo.

E esperava eu que a vida fosse uma festa,

Uma festa de alegria e felicidade,

De amor e carinho,

Animada.

Mas, nesta cidade,

Tudo passa, nada fica.

Lisboa, sempre apressada.

 

Manuel Rosa


(23) Saudade

Saudade


// Luzia //

 

 

A brisa do outono invade minha alma.

Folhas em palha colorem o caminho.

Vejo-me andando ao pôr da-esperança,

no vento do norte, em redemoinho.

 

Na face, brotam orvalhos noturnos.

Riscam lembranças de muitos momentos.

Meus ombros vergam nas curvas do dia,

cedendo ao fardo desse lamento.

 

Eu peregrino nas sombras desertas,

por um oásis no meio do nada.

E à flor da pele, minhas chagas abertas.

 

Oh, saudade que no tempo é pirata,

não vês que sangro à luz da poesia?

Devolva-me a Lua em tom de prata!


(24) novo, novissímo, piano, pianissímo

novo, novissímo, piano, pianissímo

quando eu morrer, e tu ficares
e te disserem para chorares
não chores por mim, somente
pega em tudo, o que sobrou
no que o tempo não apagou
e apaga-me para sempre

quando eu morrer, novíssimo
de leve, suave, pianíssimo
vão achar-me breve o bastante
para chorar todas as dores
sobre as pétalas das flores
que irão secar num instante

quando eu morrer, no dia
não penses na companhia
que te dava, que te fazia
pensa apenas no quanto
o que em vida morreu
chora depois, que por enquanto
(choro eu.)

José Correia



(25) sentir

Sentir

 

Sinto-me perdido,

Como um barco à deriva no mar,

Caminhando no desconhecido,

Apenas com a luz do luar.

 

Sinto saudades da minha terra,

Daquele sol brilhante,

De ver aquela serra,

Percorrendo-a em sonhos, por um instante.

 

Vejo-a na minha imaginação,

Sentindo de novo a calma,

que me enche o coração,

E apazigua a alma!

 

Marcelo Vieira


(26) Pedras com Alma – Homenagem à Sé

Pedras com Alma – Homenagem à Sé

 

Da pedreira soltas

à custa do sol, da forma e do braço,

são belezas raras,

saídas de corpos, suor e cansaço.

Passaram pela escola,

moldadas pelo mestre, tornadas rainhas

pararam no bairro,

daquela Sé velha, de ruas fininhas.

e, de lá do alto, passam-lhes as vidas

com risos e ais,

os homens sem sorte, bêbados de dor

sem rumo, sem cais.

As mulheres da vida, com mitos de amor

comprado à socapa,

e os ciúmes loucos, que desaparecem

na ponta da faca.

As rusgas singelas, desse S. João

eterno em mim,

procissões e missas, sinos a rebate

pelo fogo sem fim.

Vendas, falatórios, rostos encantados

sonhos de pobreza,

crianças sem roupa, sujas de pancada

sem nada na mesa.

E em dias de chuva, molhando em carícia

devolvendo a calma,

olho para cima e sei que são elas

as pedras com alma.

 

 

Lucinda Brochado


(27) Espelho D' água

Espelho D’água

 

Tracejei nos espelhos profundos dos rios

a face da pessoa amada.

Com os chuviscos das neblinas nevoentas

fiz seus cabelos e sua boca sedenta.

Com as gotas das minhas lágrimas de saudades

desenhei seu olhar, mas ele não me via.

Todavia, no seu rosto, lágrima de saudade também escorria.

E sua face no espelho d’água refletia a serenidade de quem já se despedia.

Seu olhar ausente timidamente encontra o meu.

Arrisquei ainda nas linhas tracejadas por um pouco de sua alma.

De repente, a sua alma, por entre meus dedos escorreu.

Em vão tentei contê-la.

Tarde demais...

Afogara-se em águas de profunda dor.

 

 

Saulo Daniel dos Anjos Leite.


(28) O SONETO QUE SE APAIXONOU POR UMA GUITARRA PORTUGUESA

Nasceu-me, hoje, um soneto descuidado,

Fazendo ouvidos moucos à razão,

E todos vão dizer que veio em vão

Pois jamais gostará do nosso Fado…

 

Mas o que aconteceu foi que, o estouvado,

Não sabendo fingir, nem dizer “não”,

Mal ouve os mil acordes da canção

Corre a abraçar-se a ela, alvoroçado…

 

Coitado do soneto… apaixonou-se

Por um fado qualquer que então passava

Nos lábios de um fadista, nas vielas,

 

E nem sabe dizer quem foi que o trouxe,

Que guitarra, trinando, assim chamava,

Que estranhas vibrações foram aquelas…

 

 

Maria João Brito de Sousa – 21.01.2011 – 19.01h


(29) Não é presente é passado

Nome: Tiago Perdigão

 

Título: Não é presente é passado

 

Isto é meu

mas no passado era teu

armado em Romeu

não sei o que é que me deu.

Foi por causa da pouca sorte

foi como se fosse morte

e não o farei embora digas

que tenho que seguir ao Norte.

Eu sei, tu sabes,

todos nós sabemos

não é futuro é passado,

é tudo o que já não temos.

Eu dei, tu deste

até mais do que tiveste.

Dói-me tanto

faz tão falta o teu canto,

todos os dias,

penso nisto constantemente

tão dolorosamente e arduamente

porque tanto tempo depois,

isso ainda me corrói a mente.

É triste

mas esta dor ainda existe e persiste,

já nem ao espelho me consigo olhar

quero amar

fazer com que possas voltar

até à próxima

até um dia,

espero até lá te voltar a encontrar.



(30) Conto os minutos

Conto os minutos

 

Conto os minutos num relógio onde os ponteiros

parecem não fazer qualquer movimento que seja,

por alguma razão o tempo parece não passar

e nada faz diminuir esta sensação de angústia e vazio,

busco em vão os seus movimentos certeiros

e aos meus olhos não há diferença que se veja,

por alguma razão sinto-me presa, sem respirar,

chorando por dentro até mesmo quando por fora rio.

 

Conto os minutos que se arrastam penosamente

como se não quisessem que o tempo existisse,

por alguma razão sito-me quase a adormecer

e não consigo avançar e mudar o meu destino,

busco uma forma de me libertar desta corrente

e entrar num mundo onde de facto eu existisse,

por alguma razão sinto que me estou a perder

e começo a sentir-me um simples clandestino...

 

Hisalena


(31) Perdi-te

 

Perdi-te

 

Perdi-te como alguém que perde a sombra,

numa tarde de verão.

Busquei-te em mil sombras do entardecer,

e encontrei-te na madrugada do meu viver.

Busquei-te em sábios e feiticeiros,

em bruxas e conselheiros.

Mas perdi-te?

Sim, mesmo ali ao dobrar da esquina do meu coração.

Saíste sem abrir a porta, na qual entraste sem a fechar.

Nas trevas sinto o teu cheiro e sigo-te.

Mas não te encontro.

Perdi-te?

O vento trás-me o teu pensamento,

e a chuva as tuas lágrimas que nunca chegaram a cair.

O frio trás-me o calor do teu corpo que nunca se aqueceu.

Agora sim, sei que te perdi.

 

Eunice Santos.



(32) POBRES MENDIGOS

POBRES MENDIGOS

 

Vou vivendo dormindo ao frio, e à chuva

Na companhia de outros irmãos mendigos

Na cidade, na estrada ou numa curva

Somos vidas de passados incompreendidos

 

O céu de dia, ou de noite, é nosso telheiro

Andamos rotos, descalços, e em desalinho

Temos a doença e fome, como companheiro

Esperando p'la morte que chega de mansinho

 

Andamos por aí, sem enganos

Procurando a beata deitada fora

Contemplamos a natureza que amamos

Vivendo connosco a toda a hora

 

Cruzamos gentes, que não nos olha

E p'ra elas, nem sequer falamos

Somos um livro que não se desfolha

Guardado em baús há muitos anos

 

Não passamos de uns pobres mendigos

Em busca de amor, por aqui, e ali

Temos a dor que dói, entre amigos

E só distribuímos o bem, vagueando por aí

 

Os degraus das Igrejas são o nosso trono

Oferece-nos as noites gélidas como retiro

Deitados em velhos cartões, fazemos o sono

Até que Deus um dia, pare nosso suspiro

 

De: fernando ramos



(33) dar-te-ia apenas um reflexo deste mundo em que te penso

dar-te-ia apenas um reflexo deste mundo em que te penso

para que pudesses dar um novo significado à primavera

ao reflorescer das gerberas aos amigos que amas devagar

 

para que o poema que trazes guardado no coração do silêncio

se revele como os débitos como o ângulo errado da geometria

como a pulga de areia que traz a saudade do verão aos dedos

 

e não

 

não é nunca um sonho louco o sonho mais louco que há-de haver

ou mais complicado de se dizer ou de se orar ou de se escrever

porque o homem sem a loucura que o é não é senão o que pensa ser

 

por isso

 

dar-te-ia apenas o perfume a melodia o guache exacto da escola primária

e o rabisco a carvão (6b) deste encanto desta irrepreensível natureza

deste poema que trago ao peito ao word ao blog ao facebook ao livro

 

para que pudesses

dar um novo significado à vida

 

sorrir mais

 

brincar mais

 

amar (ainda) mais

 

 

 

 

João Pedro Manso


(34) Portugal

Oh Afonso que foste tu criar,
um país que vive virado para o mal.
Filhos matam pais para poder comer,
pais matam filhos com medo de morrer.

Outrora um país de grande glória,
glorificado com o sangue dos de fora,
agora um país que vê o tempo sem hora,
um reino sem rei como ele um dia fôra.

Meu Portugal, que nunca foste muito meu,
para além do chão onde o meu avô morreu,
nada fizes-te para salvar nenhum dos meus
é ser português sem ter amor aos seus.

Levantas as armas contra o teu povo,
dás riqueza àquele que  te come o ouro,
Portugal, como ficas-te louco,
queres ser português, com a espada de um mouro.


por Júlio Ventura


(35) No meu mundo

No meu mundo

 

No meu mundo existe sol

E também existe mar,

E dele avista-se um farol

Que serve para me avisar.

No meu mundo existe amor

E muita solidariedade

Mas também há furor

E muita crueldade.

No meu mundo...

No meu mundo...

Gostava que fosse diferente,

Que houvesse mais

Alegria e menos tristeza

Que houvesse paz,

E muita beleza

Por todo o mundo.

 

 

Patrícia Caldeira


(36) Um dia

Um dia


Um dia cheguei a casa triste.
Tinha perdido a vontade de sorrir,
A vontade de ser feliz.
Sempre soube dar o meu melhor,
Mas nesse dia, algo me impedia.
Foi então, num momento inesperado,
Quando mal tinha chegado,
Que me deram a te conhecer.
Olhei para ti pela primeira vez
E a partir daí, nunca mais te quis esquecer.
Ao fim do dia, quando a noite chegava,
Era nos meus sonhos que concretizava
O que tanto esperava.
Tentava te conquistar para um dia me amares.
Achava que seria muito difícil acontecer isso algum dia,
Mal imaginaria eu, o que a seguir viria!
Voltei a ver-te mas desta vez foi diferente.
Tive a certeza que queria te ter
Mas tinha medo não te corresponder.
Foi então, num momento inesperado,
Quando mal nos tínhamos encostado
Que a nossa história foi iniciada.
Deste-me a mão, de seguida o teu coração
E aí, sem hesitação
Nunca mais te quis perder seja qual fosse a situação.
Agora, todos os dias chego a casa feliz.
Ganhei a vontade de sorrir e a dar o melhor de mim.
Isto tudo foi possível porque te tenho a ti

Para completar a vida que há em mim.

 

 

 

Aurélie Sobreira dos Ramos


(37) Dedilhados de memórias

Dedilhados de memórias

 

Como é bom

Sonhar ao som da guitarra,

De suave e calmo tom

Que me desperta e amarra

 

Ao conforto relaxante,

Da cadeira da Sabedoria!

Tu sim, serias minha amante

Na cama, no chão, no céu todo o dia

 

Perdura a suavidade da guitarra!

 

Vibram as cordas tocadas

Na sua ordem doce e musical.

Recordo aventuras e mulheres amadas

Sons, gostos, texturas d´índole divinal

 

Toca guitarra minha vida

Sou eu o guitarrista!

Incansável, descobridor, curioso, malabarista

Que soou as notas da pauta não lida!

 

 

Miguel Paiva


(38) Arco-íris perdido

Arco-íris perdido

Cheiro a terra quente a beber da chuva.
Gosto a pó seco, paisagem turva.
Balada de água pura, desmaiada
devagarinho até aos meus ouvidos.
Chove...
e escorre...
e antecipadamente morre
numa sinestesia trágica.
Seguem-se alguns lamentos,
já se ouve o romper do céu.
Rasga-se agora em secas lamúrias
como quem chora ameaçado,
amordaçando-se para depois se calar.
E de novo a terra seca e o pó.
O odor chegando-me às mãos
e a paisagem turva que só
se vê por dentro da pele.
Ficou o chão lavado... levou
mas ainda tenho um punhado, de mim.
Ainda tenho a alma, o pó e as sombras e
vou banhar-me neles até que me apeteça morrer.
Entretanto, fico à espera de ver chover
nesta terra perdida e morta de fome,
esquecida e torta de tanto arder
ou talvez, com sorte, dum sinestésico arco-íris.
Impiedosamente o cheiro parte
e a música cessa... seca-me
os sentidos na última gota das palavras.


Sílvia Ferreira


(39) Impossível

Impossível

 

Se me negasse, Amor, ao teu amor

Era abdicar de ter aquela dor

Que gosto de sentir no coração;

Era deixar de ter os teus abraços,

Sentir os olhos rasos da água e baços,

Passar a ter momentos de aflição;

Era deixar de ter loucos desejos...

Perder os teus carinhos... os teus beijos,

- De que sou obcecado e dependente; -

Era apagar o brilho dos meus olhos...

Deixar no coração vingar abrolhos...

Ficar numa ignorância permanente;

Era deixar de querer ter-te comigo...

Negar este meu peito ao teu abrigo...

Deixar uma cratera imensa aberta;

Era não me dar conta da demora...

Quando marco um encontro sem ter hora,

Na ânsia de te ver à hora certa;

Era perder o Sol de Primavera...

O beijo que tens sempre à minha espera...

E o teu sorriso doce de criança;

Era sentir meu próprio coração,

Naufragar, sem possível salvação,

Num mar de tempestade sem bonança;

Era deixar meu cérebro parar...

Esquecer de conjugar o verbo amar,

- Que contigo aprendi tão docemente… -

E ter, de tanta dor, a sensação

De não sentir bater o coração,

E que perdi a vida de repente!

 

Aurélio Barata Vivas



(40) Sopro do Horizonte

Sopro do Horizonte

 

Eram pelas ruas caiadas, perdidas, despedaçadas,

Que meus pés traçavam doces prantos à vida.

Oh! Bendita és, sentida, raiada…perdida!

 

Por essas mesmas ruas, descalças,

Raiava a aurora, se abria sobre o momento

Em que a felicidade querida, voltava

E desejava eu que já fosse o seu tempo!

 

De que seriam meus pés, tão maltratados?

Violinos se calam perante meu pranto,

Meu olhos se fecham sobre as malditas horas.

Fosse eu forte, conseguisse eu seguir em frente.

Mas as malditas dores floriam, descompassadas…

E os suspiros se tornavam graves, duros, incansáveis!

Oxalá fosse outra a hora, mas não era…

Não o era, infelizmente.

 

Sofia Duarte


(41) Sonho invisual

Sonho invisual

 

Numa densa escuridão

Que leva a alma a vaguear

Sinto a leve sensação,

De não estar a sonhar.

 

Folheando a vida

Página a página sempre em vão,

Numa história não lida

Numa fantasia e eterna ilusão.

 

Vou descobrir a verdade

Nas entrelinhas do meu ser,

Vou emergir da soledade

Da angústia de nada ver.

 

Destemido, vou cavalgando…

 

No dorso de um meigo vento

Num doce e belo momento

Num encantado sonho celestial…

 

Vou, desbravando estradas

Empunhando espadas

Numa batalha desigual.

 

Sou, um invisual sonhando.

 

Alma Lusitana


(42) OLHOS RESGUARDADOS

OLHOS RESGUARDADOS

 

Por trás dos óculos escuros,

sou semionipresente

e um pouco inimputável.

Posso chorar pelas ruas

e olhar as pernas tuas

e você não vai perceber.

Não, ninguém vai perceber.

 

Por trás dos óculos escuros,

tudo é mais negro, eu admito,

e a vida é menos colorida.

Mas é menos dolorida,

muito menos invasiva.

A luz solar não me cega se a encaro.

 

Por trás dos óculos escuros,

sou meio homem, meio deus,

adquiro onisciência.

Analiso expressões faciais,

avalio posturas corporais:

de invadido a invasor,

de agredido a agressor.

 

Por trás dos óculos escuros,

e somente aí,

sou quem sou.

 

(Marcelo Maio Coelho)


(43) Eterna busca

Eterna busca

 

Diana, caçando se caçava.
O que ela caçava era sombra.
E quando pensava alcançá-la,
Ela escapava.
A cada passo que dava,
Mais dez passos ela se afastava.
A distância maior se tornava
E a busca nunca acabava.

Diana, caçando se caçava.
Pena, ela nunca se capturava.
Ainda vejo seu rastro pelas matas.
Passos firmes em busca de nada?
A busca, eterna se tornava.
Estranho,
Por que Diana não desanimava?

 

 

Jonathan Gonçalves


(44) BRINCANDO COM O PORTUGUÊS, A LÍNGUA I

BRINCANDO COM O PORTUGUÊS, A LÍNGUA I

 

No balé das palavras, orações:

Simples, compostas, com ou sem sujeito.

Sinônimos de tantas emoções

Batimento forte dentro do peito.

 

Cada linha da vida assim descrita

Na palma da mão, bendita e desdita:

Sensações, quimeras verbalizadas;

Paixões, em vários tempos, conjugadas.

 

Dá pra brincar, tamanha a sua destreza,

Co’a minha, a nossa língua portuguesa,

Juntando tais vogais e consoantes.

 

Em frases corretas ou destoantes,

Nada mais será como já foi antes:

Tremas, acentuações equidistantes.

 

 

 

 

areg



(45) O Enigma da Vida

O Enigma da Vida

 

Com o desbravar do Universo

 A vida ressurgiu

Como estados formidáveis

Em harmonia com campos imagináveis

Coisas materiais existem

Mas nada representam

São apenas estados da matéria

Em harmonia com nossa própria consciência

Entender em minha concepção

É mais do que assimilar idéias

É compreender os mais profundos estados de interação

Que interagem com nossa própria existência

Compreender é como vivenciar

Aquilo que mais queremos

Querer em meu pensar

É se situar além do imaginar

Ao vivenciar o Universo

Busco respostas para o meu passado

E mesmo quando não as consigo

Ainda tenho esperança de concebê-las

Finalmente busco algo

Que não julgo ser o mais palpável

Pois se o seu acesso fosse fácil

Perderia o sentido de desbravá-lo

A vida é como um enigma

Um enigma que o Universo nos impõe

E como o Universo há de ser dinâmico

Temos de flutuar nos horizontes de nossa consciência

 

 

Paulo Tasso Diniz Filho


(46) LEMBRANÇA DE DELETAR

LEMBRANÇA DE DELETAR

A Álvares de Azevedo

 

Quando do mouse desprender-se o fio,

que liga o computador à mente,

será o fim de meus delírios

neste mundo de doentes.

 

E se uma lágrima as pálpebras me inunda,

se uma luz na tela insiste ainda,

é pela amiga virtual… a quem nunca

um vírus destruiu a face linda.


Registrem, pois, meus feitos literários

nos sites, entre muitos, esquecidos;

e a página do orkut, escrevam nela:

- Teve um blogue – apagou – e perdeu a vida.

 

 

Edweine Loureiro da Silva


(47) Pode Amar é de Graça

Pode Amar é de Graça
(Eduardo Santos)

Pode amar é de graça.

Frio

Sujo

Curto

Sou

Casa

Nojo

Pode amar é de graça.

Sexo

Bucal

Carnal

Tua

Fantasia

Carnaval

Pode amar é de graça.

Bebo

Desgraça

Enquanto

Que

Minto

Sonhos

Pode amar é de graça.

Grátis

Sou

Quase

Brinde

Em

Tua

Vida


(48) HORIZONTE NU

HORIZONTE NU

 

 

Aqui o litoral seduz o corpo,

a água esconde um mar de sêmen,

a espuma lambe os pés com língua de sal.

 

Dissessem antes do horizonte nu,

a inauguração teria sido na linha do oceano,

jamais entre as paredes de uma casa.

(Casas degolam liberdades.)

Ao vento marítimo todos os rumos são possíveis,

as algas abrem caminhos múltiplos

atraindo os passos dos pensamentos,

submergindo o mofo dos dias.

 

Dissessem antes da solidão atlântica,

a inquietude urbana viria para um banho de sol,

estariam vazias as ruas e as pessoas.

Ruas têm sempre esquinas

e pessoas são sempre cascas de subterfúgios,

ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.

Aqui, ao pé das ondas, decifra-se a escrita dos náufragos.

Apenas dedos afundados no abismo

narram com claridade a vida.

 

Aí atrás está o fim do horizonte,

um arremedo de horizonte com roupas sobre a pele.

Há a resposta que o sangue vomita.

Há mais casas que céus, mais pó que gotas

e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.

 

Nesse lugar o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.

 

 

                                                       Raduan Rebel


(49) O Poeta do Poema.

 

O Poeta do Poema.

 

O poeta escreve o poema

O poema é o próprio poeta

O leitor lê o poema e interpreta

O poema já é leitor e não poeta

Mas o poema volta ao poeta

E vêm também novas idéias

E o poeta já não é o mesmo

O poema já não é o mesmo

O poeta lê o poema e interpreta

Agora o poema já não é o poeta

O poeta já não é o poeta

O poeta é leitor e interpreta

O poema é o poema do poeta

Que ficou longe do leitor

Que um dia sonhou em ser poeta.


(50) "Acabaram-se as palavras"

"Acabaram-se as palavras" 

 

Acabaram-se as palavras

Só resta o amor

 

Acabaram, 

Fui buscá-las ao Dicionário

termos, notas, canções

poemas de amor

 

Incendiaram-se contigo

Consumaram-se 

Tornaram-se fogo,

Violento 

abrasador

 

Mas já não há palavras

para expressar, para dizer, para falar

 

A linguagem é a pontuação de dois corpos nus 

em vigília, na noite

O silêncio tomou conta

de nós

 

A paixão numa palavra ?

Absurdo 

 

Acabaram-se as palavras 

só resta o silêncio ruidoso  dos corpos

acabaram-se as palavras 

só resta  o amor

 

 

 

Autor Rui Miguel Gonçalves Marques


(51) “Se me pedisses”

“Se me pedisses”

 

 

 

Se me pedisses uma aguarela,

Dar-te-ia o arco-íris,

As sete cores para navegar

Percorrer num barco à vela

Até onde ele acabar.

 

Se me pedisses uma flor,

Dar-te-ia os jardins suspensos da Babilónia,

Faria deles o teu canteiro

O mundo antigo inteiro

Ao teu dispor.

 

Se me pedisses um anel,

Dar-te-ia os anéis de Saturno,

Enrolar-te-ia na minha capa

Partiríamos num voo nocturno

Pela galáxia.

 

Se me pedisses um vestido,

Dar-te-ia o baile da Cinderela,

Uma dança de sonho como a dela

Que durasse muito para além

Da meia-noite.

 

Porém, se me pedisses desculpa,

Chamar-te-ia apenas infame e cruel,

Ou não sabes que a tua única culpa

Está nesse teu sorriso de mel

Com que derretes o mundo de este a oeste

Como me fizeste?

 

 

 

 

Bernardo Dias


(52) Quando o meu corpo gelar

Quando o meu corpo gelar

Quando o coração parar

Quero esquecer o mundo

Ter a alma a divagar

 

Quando se for o que sou

Quando morrer o que fui

Quero apenas perder

A noção de quem da alma usufrui

 

Quando esquecer quem és

E esquecer aquilo que sou

Quero perder os pés

Para não ir onde vou

 

E quando uma flor negra chorar

A minha triste melodia

Quando o meu corpo gelar

E quando acabar o meu dia.

 

                        Andreina Duarte


(53) Sorri

 

Sorri,

Sorri sempre

Com teu sorriso alegre, generoso, colorido

Com teu olhar brilhante, onde tudo faz sentido

Com graça de sonhador, cheio de ideias e esperança

Sorriso solto, inocente, que lembra uma criança

 

Sorri

Sorri agora mais alto, com mais força, mais talento

Deixa o teu riso voar, ser levado pelo vento

Pairando sobre a cidade, sobre o campo e sobre o mar

Ouvindo-se em todo o lado, e o mundo contagiar

 

Ri ainda mais um pouco, provando que és feliz

Mostrando que o nosso mundo é melhor do que se diz

É nele que nós crescemos, construímos, aprendemos

Que o sorriso mais sincero é o melhor que oferecemos

 

Sorri,

Sorri sempre

Com teu sorriso alegre, generoso, colorido…

 

 

 

 

 

 

Paula Baúto


(54) De novo por cá

De novo por cá

 

Já chegaram, estão todos cá

os hitleres voltaram há minha terra,

solenes, mil promessas fazem já,

vida boa para todos, nada de guerra

 

Dizem que vieram de amor fardados

Nem espingardas, nem espadas

de sorrisos nos lábios vieram armados

de boas intenções, abonados

 

Andam aí todos pelas ruas da minha terra

Falam manso, a todos dão uma mão

juram que tudo fazem a bem da nação

 

Já voltaram os dias da noite escura

Já a mentira, sua adaga enterra

Já a verdade deixou de ser segura

 

Zé Ru+


(55) Meus Olhos

                               Meus olhos

                                             Marly Renault Adib Bittencourt

                                        

Meu olhar dança nas ondas azuis das montanhas,                                   

Caminha, corre, sobe e desce a ladeira distante.

Olhar bêbado sai vagando caminhos sem volta,

Embrulhando momentos, só por um instante.

 

Meu olhar voa sem medo outros mundos,

Vislumbrando espectros sombrios das florestas

E com os olhos de dentro vê o que lá fora dorme

Aquilo que fica nas esquinas, nas arestas.

 

Meus olhos dançam de roda nas cirandas,

Brincam de amarelinha jogando a pedra ao léu.

E tonto de rodar pisca, pisca como estrelas

E a menina do olhar vai cair lá no céu.

 

Tenho nos olhos a nascente de um rio salgado,

Onde embarcações viajam sem eira nem beira.

Nas suas margens, ribeirinhos dançam e cantam,

Lavando as mágoas no rio-mar, que nem lavadeira.

 

Num sono profundo muito além do mundo

As janelas dos meus olhos vão se fechar

Não bata na vidraça, não faça ruído algum.

Apague as luzes e sai de mansinho, devagar.


(56) Intimidade...

Intimidade…

 

Mãos se unem por entre olhares encantadores

Aconchegam-se bem de leve e tocam-se pelo coração

Olhares se fundem como feras e pecadores

Lábios se beijam ritmados numa canção

 

Toques suaves se fazem deslizar

Magia por entre os dedos e suspiros

Corpos num só corpo se fazem amar

Momento preenchido de todos os outros vazios

 

Gritos de prazer unem a terra e luar

Tempestade se acalma por entre vales e rios

Tranquilizam-se as ondas do mais severo mar

Seres se enlaçam pelo nó de dois fios

 

Intimidade num estado de alma pessoal

Dois corpos se entregam pela magia do amor

Sentimento puro de tal forma natural

Corações solitários se juntam com ardor!

 

 

 

Sónia Isabel de Campos Lopes


(57) Haja Amor..

Amo a vida a preceito,
Amo a vida com ardor,
Amo todas as mulheres,
Amo todas sem amor.

Amo a minha liberdade,
E a minha paz também,
Amo a minha vaidade,
E o meu querer, eu sei.

Amar sem amar,
É igual a tudo e nada,
Experimentem não respirar,
Manter a boca fechada.

Aquela distância que passa,
Aquele tempo pequeno e curto,
É enfim o amor que tarda,
No seu correr absurdo.

Amo tudo e nada,
Amo de certeza alguém,
Descobri que amo,
A minha pessoa também.

Haja amor..

 

                   Fernando Silva


(58) Domingo

Não estava apaixonado,
comprou pipoca e deu aos pombos,
não por piedade, mas por não ter o que fazer.

Sentou-se no banco e olhou para o céu,
não viu desenho nenhum,
apenas uma nuvem disforme.

Pensou no vazio e na segunda que estava por vir,
foi pra casa, não havia motivo para estar ali.

 

Eryck Magalhães


(59) asas bravias

asas bravias

 

batem

sem contenção

num movimento rudimentar

 

as asas

da contradição

não aceitam conformismos

 

não têm a beleza

de um majestoso voar

 

não têm a riqueza

que embeleza a visão

 

não são simétricas

na sua envolvência

 

não registam

o agrado dos semblantes

 

mas são a força pura

da liberdade

 

 

 

António MR Martins


(60) Decifrar o Céu

Decifrar o Céu

 

 

Soubesse eu decifrar o céu,

Códigos estrelares escondem o infinito querer,
Anciado pelo mal, porém inálcansável

Pelo seu cego querer de poder;

A chave é pura, de simples ternura,
Que seja sem ser o seu desejo,
Qual beijo á inocência, qual beijo
Esconde em si os lábios de quem ama,
Mostrando apenas o que ninguém vê,
Mostrando apenas o doce calor de uma chama!

Decifrar o céu, qual chave?
Com o coração qualquer porta abre,
Qualquer combinação se assim for
Qual o céu que não abrirá o amor?
Qual o fim do infinito céu, qual?
P´ra quem ama não há, finito será o mal
De quem precisa porém de um simples perdão,
Pois em sofrimento profundo estará o seu coração;

O amor verá o infinito do céu
Puramente pintado, reflectido no mar,
A chave estará em qualquer coração,
A chave será a simplicidade de amar!

 

 

Guilherme Almeida


(61) Deusa

Deusa

 

 Passeias-te com o teu ar superior de quase imaculada.

 Essa tua pose quase idílica deixa transparecer

 Uma perfeição quase notável que me deixa estarrecido

 A olhar para ti

 Como se não existisse mais nada,

 E mesmo existindo

 Tudo o resto não tem importância alguma.

 

 Mas que figura tão platónica a tua.

 Brincas com os passos como quem dança

 Uma dança eternamente feliz.

 Danças e giras o mundo à tua volta

 Com uma facilidade incrível.

 És tu quem comanda o mundo.

 És tu a dona de tudo o que existe.

 

 Deusa.

 

                                                                   José Ferreira


(62) Sádico

 

                          Sádico

 

Vem divertir-te no meu jardim perverso

Em flores estendido e ordinário

Põe-te ilustrada por avesso

E agita o teu chapéu como um corsário

 

Que eu te quero sem amor debaixo

Das Palmeiras e de Abacates

Que eu quero-te lisa num banco estreito

Sonhado a ouro de nenhum quilate

 

Porque Amor é droga seminal

É soneto que se dobra de um regaço

E o teu corpo é mais belo afinal

Na demora de um astro

 

Tu que preferes os ventos por sentir

Deixas-me embora frágil, desmedido

Na praia onde delira inexplorada

A nossa Amizade arrebatada!

 

Daniel Correia


(63) Teus Olhos

Teus Olhos

 

 

Teus lindos olhos, feitos de histórias

De aventura, de pontos de luz

Envolvidos, sobre uma sombra

De perguntas e claros de respostas

Respondidas perante a vida

Do que te rodeou e envolveu,

Do que ficou, do que desapareceu...

Mas tua visão demonstra

A abertura para um mundo de tranquilidade

No qual teu olhar profundo deseja

E pede para seres tu a o governar...

Não vês somente o que queres,

Empurras teu olhar para tudo o que não

Pudeste ver, para uma realidade

Que faça teus olhos descansar,

De focar os detalhes de um mundo que pouco te diz

Do qual olhaste e não acreditaste que fosse somente assim...

Projectas uma força incrível que não te deixou

Para trás, que não esmorece de teus olhos...

Como o mundo não foi preparado para a perfeição do teu olhar

E ele não foi feito para te ver, esse desentendimento

Foi alcançado pelos meus olhos, tantas vezes distraídos

Em pensamentos de utopia, que me fizeram crer

Em outros elementos que o mundo não suporta,

Mas os teus lindos olhos, calmos, enfurecidos, meu amor

Foram eles que fizeram ver aos meus que a beleza,

A autenticidade que o mundo perdera,

Se encontra no teu olhar mais simples...

 

Sílvia Barroso


(64) Regaços Infinitos

Regaços Infinitos

 

A vida mora em cada pedaço de mundo,

Num orgânico esplendor de diversidade,

Que ausenta o tempo de qualquer segundo,

No olvido do preceito que nos escreve Humanidade.

É uma junção de sangue avulso

Que estoicamente desagua numa imensidão,

De sensações que te avivam o pulso

E maresias aprazíveis à razão do coração.

São árvores outorgadas ao conhecimento

E um misto de sons que unem as gentes

Uma ponte instintiva a cada elemento,

Que ecoa num céu de seres reluzentes,

Espelhando o prazer de uma onda do mar,

Ou um manto de neve na vizinha montanha,

Consagrando à natureza o prazer de se amar

E aos sentidos esse grado que se entranha,

Por entre qualquer infinidade de existência

Que possa por aí insistir em permanecer,

Qualquer bárbara paixão de inocência,

Onde um Homem possa se socorrer

Dos olhos da norma que ensina a mentir,

E esquecer a infância que nos traz à felicidade,

Apregoando momentos próprios para sorrir

E enredando o prazer inapto da simplicidade.

Não é dos grandes que reza esta mensagem,

Nem dos actos descritos como eternas glórias,

Mas sim de provar pelo sabor a viagem

De entregar à efemeridade qualquer memória.

 

 

 

André Rala


(65) Nós e o Mundo

Nós e o Mundo
 
Sopra o vento lá em cima no sopé da montanha,
Onde o ar é mais puro
Onde posso tocar o céu
Onde posso ser quem sou.
Fico fascinada com tanta beleza colossal,
Tudo é mágico tudo é completamente sideral,
Já não vejo o Mundo ao nível do chão,
Vejo-o e sinto-o em todo o seu esplendor
Tudo o que os meus olhos alcançam é surreal
Perco-me na tua beleza e encantamento.
Corro por entre o teu afloramento e o limite que existe em ti
Nada em ti é superficial tudo é visceral, intrínseco,
É o teu interior que me mantém centrada, inteira, completa e audaz.
Num só impulso, salto para o teu abismo
Enfrento o medo o receio
Com a necessidade fundamental
De te ver numa outra perspectiva
Diferente do natural.
Ao descer em queda livre liberto toda a energia
Que há em mim juntos numa dança inconstante e alucinante
Perco-me na tua eterna forma até tocar novamente
No teu manto firme, que me faz acordar para a realidade
E congelar em mim cada momento que há em ti.
 
Sónia Manhita


(66) A PALAVRA

A PALAVRA

 

As palavras versos dão
Pela pena do autor
Mas creio que muitas são
Entrelinhas para o leitor.

A palavra é uma paixão
Quando se dá grã valor
E se cruza o coração
Tudo faz por ser amor.

A palavra é uma semente
Que germina amiúde
Em retalhos do presente.

A palavra só se admira
Quando a morte ou a saúde
Para outro mundo nos tira.

 

Cidália Miravento


(67) Tudo

Tudo

_________________________________________

 

Anda comigo, observemos o mar,

E falemos e cantemos e juras e carinhos troquemos,

E amemo-nos na areia que luz ao luar,

E por fim, sob a chuva quente, descansemos.

 

Acordemos depois e de nós duvidemos,

Duvidemos de ti, duvidemos de mim,

Duvidemos do mundo e então por fim

Paremos, desistamos e pensemos e crescemos!

 

Não.

 

Tentemos o que não tentámos

E vivamos, ignorando que crescemos,

E apreciemos o que de mais belo visámos

E que por medo deste fado não fizemos.

 

Anda comigo e esquece o passado e o futuro

E esquece o presente, porque o tempo é só um,

Porque é por ti que eu vivo, e é a mim que censuro,

Porque és tu a razão de eu ser todos e nenhum,

E por isso vive! Vive e ama-me,

Porque é tudo o que peço e tudo o que quero!

Ama-me!

É tudo o que espero…

 

 

 

Paulo Buchinho


(68) ÂNSIA

ÂNSIA

 

Sou um mar tempestuoso que se estende pela praia;

Um rio de águas violentas fugindo das margens opressoras;

O vento agreste e purificador que sussurra entre as fragas;

Sou um pássaro que conquista os céus sem fim;

A borboleta que dança de flor em flor sem escolher nenhuma;

Sou tudo isso e muito mais,

Amarrada a uma existência que me oprime;

Ânsia incessante...Inquieta...

Sou imensa...

Sou mais do que eu...

E por tudo isso, não caibo dentro de mim.

No limiar da realidade e da fantasia:

é aí que permaneço.

Não sou de uma nem de outra: sou de ambas.

Sou imensa!

Por isso não caibo dentro de mim !

 

Calíope (pseudónimo)


(69) MORFOLOGIAS II – NOITES DE LISBOA

MORFOLOGIAS II – NOITES DE LISBOA

 

 

Com pincéis e tintas e água

construí fogos brancos, fulgores,

diluí melodias,

cedi a impulsos.

Desapareci ao acaso,

coloquiei de formas diferentes,

caminhei por entre buzinas e sirenes.

Cegos, todos cegos …

Canto do agreste,

abraçamos a intranquilidade,

a paixão, a indiferença,

a mão amiga não deixa existir portas de saída …

E então porquê, diz-me, assim se anima a noite,

fala-me das esquinas, dos bêbedos nos cantos

dos jardins,

a fonte, a vida, as prostitutas.

Então porquê, diz-me, tudo se apaga

num momento …

Fala-me dos dias também,

que o negrume escureceu,

fala-me da sorte, do azar e da certeza,

fada que o lume da estrela adormeceu,

fala-me de monstros e beleza …

Ocultas as noites, ocultas as manhãs,

por cada passo, que longa caminhada …

 

Fernando Lopes


(70) Mistério

Mistério

 

Antes de manhã, talvez clara

Era a sombra do mistério que

                                          [ carrego

Envolto em uma mística rara

Um sonho absurdo, antigo, navego.

 

E o mistério próximo, palpável,

Encarnou na hora terceira

E cri ser única, insondável,

A hora, breve, derradeira.

 

A velejar o tempo navegante

Onde nada resta, e a idéia vela,

Respiro a quimera, vaga, arquejante

 

E mergulho no absurdo que se revela...

O mistério, poeta, é o horizonte distante

Que contemplo da minha janela.    

 

 

 

Gustavo Figueiredo


(71) Saudades de ti

 

Saudades de ti

 

Eu sinto esta saudade tamanha,

Do tempo que se foi e não voltou,

Daquilo que eu fui e já não sou,

E me faz sentir uma dor tão estranha.

 

Uma dor que carrego no meu peito,

Que me dói quando passo aquela rua,

Que durante tantos anos foi a “tua”

E eu olho para ela com respeito.

 

Sei que cada pedra da calçada,

Recorda o barulho dos teus passos,

Como eu recordo a tua imagem.

 

Agora o que resta, não é nada,

Apenas o calor dos teus abraços,

Que deixas-te na tua curta passagem

 

 

  Idalina Pata


(72) Pequenos Nadas

Pequenos Nadas

 

São pequenos nadas

Que guardo no peito

Tal como este momento perfeito

Onde me encontro agora

E que me floresce o canto

Nos meus olhos de encanto

E que não deixo ir embora.

São pequenos nadas

Que beijam a ferida

Da minha alma com vida

Cheia de amor e saudade

E que se lançam ao mar

Para salvar os sonhos

Que ele me tirou por maldade.

São pequenos nadas

Que vestem com calor

As noites de luar

E que até à luz do alvor

Me fazem acariciar

Os pequenos nadas em flor.

São pequenos nadas...

São ternuras bravias...

Que me encantam as madrugadas...

Que me encantam os dias...

E a que me entrego com fervor

Pois estes pequenos nadas

São, tão simplesmente,

Pingos puros de amor.

 

Carla


(73) Escreve-me

Escreve-me

 

Escreve para mim o mais belo poema de amor, disse-te eu um dia

Tu olhaste-me com ternura infinda e correste desenfreado

à procura das palavras...

Colheste-as uma a uma e escreveste-as no papel

 

Lê-as devagarinho, disseste-me tu um dia

E eu, com medo do desengano, li as reticências, as vírgulas e os pontos finais

Quando terminei, no silêncio de mim, o coração chorou baixinho

com o assombro das palavras...

 

Apertei nas mãos e fiz calar o que tinha escrito para ti...

Definitivamente não sei escrever poemas de amor!

 

 

Margarida Pinto Duarte


(74) Nó górdio

Nó górdio

 

 

Tatiana Alves

 

Todas as vezes em que ocorre um dilema,

Em que o homem se depara com o fracasso,

Ele pensa, ao mirar a própria algema,

Em tudo aquilo que lhe falta ou é escasso.

 

Não percebe, pobre homem, que, na vida,

O destino é voltar um dia ao pó

E que aquele que deste saber duvida

Está fadado a ser voz que canta só.

 

E blasfema, sem qualquer pejo ou dó,

Diante dessa dor que o arrebata.

Ignora que a vida é qual um nó

Que só finda quando a morte o desata.



(75) Finis Patriae

Finis Patriae

 

André Caldas

 

 

Na minha terra não há mais palmeiras...

Na minha terra não há passarinhos...

Na minha terra não há nem bandeiras...

Na minha terra não há mais moinhos...

 

Em ciranda da carne putrefata,

Voam os urubus, mais-que-famintos,

Homens e animais mortos pela estrada,

Todos os sonhos, pretéritos, extintos.

 

Desta terra o povo não é seu dono,

Mas há aqueles que se intitulam Reis...

Disseminam a miséria e o abandono...

Sem flores, sem amores, sem leis.


(76) Caminhos de Luz

Caminhos de Luz

 

A cor de um segundo de emoção

É o azul que esverdeia a minha dor,

Voo no tempo e sonho com paixão

Por caminhos de luz no meu olhar!

 

Olhar que encanta em cada canto

Onde destemido enfrento cada perigo,

E por mares e horizontes percorridos

Semeio as flores do meu destino!

 

O destino cantado por embalos de amor

Que trazem a mim uma vida com sabor,

Um abraço apertado aquece minha alma

E num sorriso torna eterno um momento!

 

Um momento escrito numa doce verdade

Que tem de ser regada em cada silêncio,

Para que o fogo ferido do corpo que mente

Não se apodere da mente feliz e curada!

 

E nas lembranças de um passado cansado

Construo o presente que me ilumina,

Dou cor ao intenso futuro que sonho

E pinto desejos de esperança e alegria!

 

Desejos que me guiam a cada sombra

Onde o sol brilha num instante,

Pedaços de uma viagem de magia

Em busca da felicidade sem limite!

 

Luís David Ribeiro Rola


(77) Um dia, quando...

Um dia, quando...

 

Um dia, quando o céu chorar e os anjos caírem
eu quero estar lá, bem perto do infinito
para apanhar uma estrela e guardá-la junto à chave
que encerrou a minha história.
Um dia, quando se calarem todas as vozes do mundo
eu quero estar lá, nos lugares que foram meus
para gritar cada palavra que inventei
para o meu último capítulo.
Um dia, quando pararem todos os relógios e o tempo ficar suspenso
eu quero estar lá, no vazio das épocas
para suavizar o peso dos anos apressados
e a contagem dos dias mortos.
Um dia, quando se aproximarem do fim todas as coisas
eu quero estar lá, no princípio do mistério de tudo
onde se erguem as derrotas e das ruínas se elevam vitórias.
Um dia, quando a vida se fundir no silêncio
e a morte se cruzar com o sonho
eu quero estar lá, no meio das sombras que vagueiam
para submergir nas utopias.
Um dia, quando os lobos uivarem para lá das cidades e um corvo vier
de onde moram os poetas já sem vida
com uma carta escondida na asa assinada por mim
significa que morri.
E nesse dia, quando eu morrer, não quero lágrimas nem luto.
Quero que as almas que ficarem do que restou da glória
me lancem em mar alto num verso branco
lá, onde segredo nenhum é desvendado e tudo se transforma em poesia.
E ao longe, bem distante, quero escutar
o cântico de um bando de gaivotas a sobrevoar as dunas
no mais sublime sinal de liberdade.

 

 

Leonor Teixeira


(78) «Ímpio Caleidoscópio»

«Ímpio Caleidoscópio»

 

Caprichosa ente, também mente!

Refina-se lá no longínquo Olimpo

Disléxicas papoilas, sapiência extraem, atenção redobrada!

Entre o amanhecer e o anoitecer vangloriam-se das maçónicas sabotagens

 

Formidável sexto sentido! Mentes desincorporam!

Pecados mortais sugam, dignas trovadoras representam

Alambicam a canhoada, ELAS seleccionam!

Inteligentes escravos do prazer, os pinga-amores?

 

Engalanam-se de ricas sedas, pronunciam os andamentos!

Quantos mistos panejamentos! Sopram os teoremas

Espalham amiúde transcendentes fungos!

Ejectam as libidinais lentes humanas

 

Plantam ornatos aparelhos, cuidado Exmos. senhores!

Nada sabemos, nada tememos, ELAS tudo temem!

Indolentes e astutas propriedades ELAS economizam

Amálgamas de coloridos trejeitos, nas alheias areias esvoaçam-se

 

Disformes personagens, comprometidos olhares entoam

É a pauta dos bélicos contos!

Acordem! Autografam-se os suaves contornos

Tentamos desmistificar, mas mistificados adormecemos!

 

Cronometram as morais lições, as esfinges implementações

Corram, corram programadas criaturas, cegos sois?

Ouço decadentes pianos, isolam-nos a moral!

Ímpios caleidoscópios, quãs poderosas alucinações!

 

Por: Luís Filipe Marinheiro


(79) As mulheres da minha aldeia

 As mulheres da minha aldeia

 

 

As mulheres da minha aldeia

Junto ao rio e à serra

Acordam em lua cheia

Pintam as unhas com terra

 

As mulheres da minha aldeia

Vestem capuchas e socas

Cansadas depois da ceia

Fiam cuidados nas rocas

 

Filhos são os que Deus quer

Só a natura as enleia

O pão é o que vier

 

E a alma é o que se quer

 

O trabalho é a sua teia

A família a sua ideia

São mais que qualquer mulher

 

João Sevivas


(80) Existo para ti

Existo para ti

Bosque fechado, cerrado

Superstição

Eterno anel de noivado

Olhar nunca calado

Espero e esperarei

 

Serás sempre virgem

Enquanto não te provar

Deixa-te abandonar

Vem ao meu encontro

Perde o medo, ganha alma

Tira a pintura da cara

Mostra-me a tua calma

 

Simples, deslumbre

Hecatombe de desejo

O que eu faço por um beijo

Tudo, tudo, tudo

Um leito de rosmaninho

Esse é o caminho

 

Faço e desfaço e vou-te desfazer

Se às mãos me vieres ter

 

Aldeia Lacustre


(81) A poesia

A poesia

 

O sol corria de mãos dadas com a esperança,

Enquanto o dia se curvava num amargo fim…

Lá fora o vento anunciou a bonança:

Sobre a chama da paixão pousas-Te em mim…

 

Julgava-te sem brilho num deserto apertado!

Acordarei do silêncio? Nos meus olhos o mar,

Não tem tormentos… Vem evocar o passado!

És a semente generosa que regressa ao lar…

 

Aqui estou! Um servo na tua mão

Para receber a inspiração como sacramento.

Já sinto a espada nos meus ombros, com a verdade…

 

Numa salva suplico-Te: não sejas uma ilusão!

Quero os teus dedos nos meus num momento

Para que sentir de novo a imortalidade.

 

Peresalves

2011-03-23


(82) Partiste caravela

Partiste caravela, rumo ao mar,

Criancinha a brincar na agitação

De ser adulta, não ter salvação,

E saudade deixaste p'ra lembrar;

 

Saudade da certeza no chorar

E em braços de mãe ter consolação;

Saudade prisioneira da razão

Que livremente a dor tenta abafar;

 

Saudade que apertando lá no fundo

Do sentir desenlaça a curta vida,

Tão longa que a saudade gera o Mundo;

 

E em busca da inocência já perdida

Nas ondas da saudade, mar profundo,

Choro numa alegria desmedida. 

 

Gonçalo Dias Figueiredo


(83) Prefiro não saber

Prefiro não saber



Não sei porque razão

Mas escrevo Poesia.

Por arte ou necessidade,

Sei apenas que é tarde

E que o meu Mar de palavras

tem 21 portos de salvação.

 

[Os meus dias são versos,

Os meus meses são quadras,

Os meus anos são poemas.]

 

Então que a minha vida

Me encha de temas,

Me liberte da rotina

E me desvende o Ser.

 

Não sei porque razão

Mas escrevo Poesia,

Então que os problemas

Sejam a minha maresia,

Que me levem a escrever.

E que a escrita me leve a viver.

A razão? Prefiro não saber...


Casapio Di Caffi (Pseudónimo)


(84) Preto no Branco

Preto no Branco

 



Ninguém acredita naquilo que vê,
Ninguém mostra
Aquilo que é
"Todos somos diferentes"
Mas não
Todos somos iguais
Todos pensamos no que vemos
Portanto
Sonhamos com o que não temos
Amamos
Quem não devemos
E rejeitamos
Aqueles que realmente
Sabemos
Que o seu maior defeito
É querer-nos...


Filipe Fernandes


(85) Subo as escadas lá fora

Subo as escadas lá fora,

Degrau a degrau,

Como se nunca houvesse um fim.

Continuo passo a passo,

Dia após dia,

Apressadamente,

Sem ver realmente o que me rodeia.

Hoje preocupa-me onde é que a vida me vai levar

E para onde.

Caio vezes sem conta

sobre um colchão

E tento dormir

Mais uma noite.

Mais um dia.

Mais e contraditoriamente menos tempo.

Assusto-me.

Arrefeço de medo.

Gelam-se-me os pensamentos.

Choro silenciosamente,

Enquanto que a raiva que me aconchega torna-me inquieta.

Adormeço mais tarde.

Depois acordo e suspiro baixinho:

- O tempo não quer parar.

 

 

Rute Morais



(86) Gaiola Vazia

Gaiola Vazia

 

Sinto que quando saio de mim

deixo para trás uma gaiola vazia,

dando  lugar ao tempo

que decorre intermitente

com o despenhar das folhas.

 

E há em cada despertar meu

um bater de asas tão forte,

que já nem sei se ainda habito

a terra que em mim habita.

 

Sim, é minha intenção perder-me.

Não adianta que me pintem

oceanos nas mãos,

se nunca os aprendi a ler.

 

E a ti, que tens um nome

igual a tantos outros,

deixo-te a flutuar no nevoeiro

das tuas ocas certezas.

 

Eu? Eu pertenço às árvores,

ao vento e a tudo onde caiba

o que em mim pode caber.

 

E há em cada palavra proferida

tamanha fugacidade,

que já nem sei se escrevo como falo

ou se falo como escrevo.

 

 

Sofia Gomes


(87) “Melro Madrugador”

“Melro Madrugador”

 

Acordei a meio da madrugada e ouvi

ainda estremunhado!...

Levantei-me devagarinho e fui à janela

espreitei com curiosidade e de perto o vi ….

 

Encantei-me com aquela melodia tão bela

que até parecia chamar por mim.

À quanto tempo o não ouvia

numa manhã tão fria!...

 

Tão melodiosa entoada

extasiado e cheio de nostalgia ….

ficando minha alma encantada.

 

Era um melro negro de bico amarelo

gracioso e muito divertido!...

que por magia parecia tão belo

declamava um poema tão sentido.

 

Quem diria que tinha tanto talento

para tão divertida canção ….

cantiga lançada ao vento

que penetra no meu coração.

 

Ai o melro!... esse vadio

é negro e muito divertido….

como é generoso e amigo

interrompe a cantiga com um assobio …

naquela manhã de frio ….

soltando de vês em quando um gemido.

 

Artur Cardoso


(88) Adequação

Adequação

Vou tentando me adequar às horas,
Ainda que elas não se adéquem a mim...
A arte que crio recria a minha visão sobre o mundo.
Busco o encantamento perdido
Nas páginas envelhecidas dos sonhos,
Chamo a inspiração, que também me chama.
Lembranças umedecem os olhos,
Amolecem a rigidez das metas...

O CD toca a música que me toca,
As fotos na tela do computador
Revelam cores, traços, formas...
Que me revelam ao avesso.
Os meus heróis saltam das prateleiras -
Dos livros anexos aos meus reflexos.
Busco o alinhamento perfeito
Para a inspiração me possuir por inteiro...
Busco o seio que me falta,
O centro côncavo do sexo,
O umbigo-mar dum anjo qualquer. 

Vêm-me à mente personagens, pessoas, situações
Que inundam os meus caminhos-veias.
Passam, partem, permanecem...
Andamos por entre teias.
Caminhemos! Antes que as pontes se quebrem...
Caminhemos! Luz, câmera, adéqua a ação
Na equação do universo,
Do verso que desune os laços obsessos 
E revela o encanto da simplicidade.

Nathalia Wigg


poesia em rede

Poesia em Rede, 6 de Abril de 2011 - ©Direitos Reservados